Certamente muitas pessoas não devem ter visto pessoalmente o globo da morte, fruto dos grandes circos, os de luxo, de bilheteria caríssima e que conseguem espaços nas grandes cidades. Diferente dos circos de bilheteria de rua, onde os próprios artistas se apresentam antes mesmo do espetáculo, vendendo os bilhetes de entrada pela cidade, circos que a cada dia são mais raros, por não existir mais espaço, principalmente nos grandes centros urbanos.
As possíveis áreas para instalações de circo nas cidades parecem terem reduzido, um exemplo é a cidade do Recife, que para receber um famoso circo a cerca de um ano atrás, teve que criar um espaço na área de um parque, e este espaço até hoje não recuperou suas características.
Contudo, deixemos isso na geladeira e vamos voltar ao globo da morte, que consiste em uma espécie de jaula na forma de uma esfera de aço onde alguns motoqueiros (geralmente quatro ou cinco) andam com suas motos em seu interior, uma ação que requer perícia e habilidade. Nesta ação a moto vai e volta, ficando de ponta cabeça e circulando a esfera em diferentes sentidos até a parada ao centro, um processo onde parar é um risco muito maior do que circular.
Descrevendo esse processo pretendo dizer que a ação de parar, atualmente é comparada ao globo da morte, e a vida a rotina de muitos, sobretudo a minha, ao longo do mais de quatro meses.
Tornei minha vida um globo e fiquei com medo de parar, pois tratei a não concretização de tarefas que eu teria que cumprir como a morte, flagelando-me e mergulhando cada vez mais no vício pelo trabalho e pelo resultado.
Corri tanto sem chegar a um lugar, que pensei ser infinita a corrida. Aos poucos um carrasco tomou o controle de mim e não me deixando parar e promovendo atrocidades em todas as minhas tentativas de relaxamento.
Assim fui castrando de mim mesmo, os filmes, os programas, os noticiários, os passeios, chegando ao ponto de não poder nem escutar as manchetes, ou mesmo dar uma olhada relâmpago em portais de notícias.
Castrei-me do direito de redigir quaisquer coisas que não estivesse relacionada ao trabalho, como o meu hobby de manter um web site e um blog, castrei-me as peladas, os passeios, as brincadeiras com minhas filhas e até o direito de dormir. Os finais de semana, feriados, dias santos, imprensados, jogos da copa do mundo até mesmo da seleção brasileira foram castrados, dando-me a sensação de não poder parar de forma alguma.
A refeição deixou de ser um momento de convívio, por serem controladas e associadas com outra ação. O carrasco desejava que houvesse resultado e trabalho nada mais importava, não existia planos nem metas, todos os dias passaram a ser o término de tudo aquilo, até a fé começou a fraquejar, eu estava numa espécie de globo da morte, onde o giro arriscava a vida e a vida tornava-se um drama, falta de meu domínio em relação a mim mesmo.
Aos poucos a produção caiu devido o cansaço, e o que deveria levar um dia, passou a levar uma semana para ser concluído. Estafa, estresse, saturação foram me dominando a ponto de pensar em fugir, pular do alto, acabar com a tortura.
Porém, a persistência e a obstinação foram mais fortes do que o carrasco. Tive muitos desejos nesse período, porém, o maior de todos foi de voltar a ser gestor de mim mesmo e neste dia destinar-me a preciosidade da vida, o toque, o cheiro, o beijo, a presença e o ócio.
Expulsei o carrasco e hoje sou dono de mim, poxa, será que alguém já sentiu isso? Certamente! Contudo, mais duro que ser explorado é explorar-se. Hoje, após algumas semanas da conclusão e exterminação do carrasco em minha vida, tenho me dado muitos direitos, pareço até um garoto quando chega ao campo e os pais dizem pode correr.
Você amigo (a), que aos poucos deixa o trabalho tomar conta de sua vida, pare, olhe e escute. Tem uma série de gente querendo sua atenção. Não faça o que eu fiz, faça o que eu digo, pois as palavras são lições de um amargo erro, que provocou traumas em mim e nos que me cercam. Não se faça de bobo, pois os que circundam são os pilares, esses e essas ficarão e estão com você e são mais valiosos do que o trabalho, e mesmo que os resultados e os recursos não cheguem, avaliem que o melhor é ter saúde.
Trabalhos vão e voltam como o vento, porém, o tempo não volta. Tenha gestão sobre você e não deixe o carrasco que existe dentro de você aparecer. Cuide de você e dos que te amam, te cercam e, sobretudo ame.
Sou a prova que o controle e a liberdade estão em nos mesmo, assim controle suas cobranças e não deixe que terceiros pautem sua vida e seu descanso, não se flagele. No começo pode até ser tolerável e bom, depois doe e vicia, não seja um carrasco, lute contra os que desejam te explorar, ame-se e deixe ser amado, pois assim nenhum tipo de carrasco interno ou externo domará você.
Concordo em genero e número, não podemos nos curvar diante das incompetências destas operadoras.
Vamos à luta!!!
Salomão Jalfim.